Endometriose e fertilidade: quando a doença pode dificultar a gravidez?
Entenda como a endometriose pode afetar a fertilidade, quando a doença dificulta a gravidez, quais exames são indicados e quais tratamentos aumentam as chances de gestação.

27/08/2026
Autoria e revisão médica
Conteúdo assinado e revisado pela Dra. Andrea Schiavinato Jafelicci, cirurgiã oncológica, CRM 129.622.
As informações têm caráter educativo e não substituem consulta médica individualizada.
Receber o diagnóstico de endometriose costuma gerar muitas dúvidas, principalmente entre mulheres que desejam engravidar. Uma das perguntas mais frequentes é: “Quem tem endometriose pode ter filhos?”
A resposta é tranquilizadora: sim. Muitas mulheres com endometriose conseguem engravidar espontaneamente. No entanto, dependendo da localização e da gravidade da doença, a fertilidade pode ser comprometida, tornando a gestação mais difícil.
A endometriose é considerada uma das principais causas de infertilidade feminina. Estima-se que 30% a 50% das mulheres com endometriose apresentem dificuldade para engravidar, enquanto entre mulheres investigadas por infertilidade, a doença está presente em cerca de 25% a 50% dos casos.
Isso não significa que toda mulher com endometriose será infértil. Na prática, cada caso deve ser avaliado individualmente, considerando idade, reserva ovariana, extensão da doença, sintomas e outros fatores relacionados ao casal.
Neste artigo, você entenderá como a endometriose interfere na fertilidade, quando ela pode dificultar a gravidez, quais exames são necessários e quais tratamentos podem aumentar as chances de uma gestação saudável.
O que é endometriose?
A endometriose é uma doença inflamatória crônica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina.
O endométrio é a camada que reveste o interior do útero e sofre alterações ao longo do ciclo menstrual para permitir uma possível gravidez.
Na endometriose, esse tecido pode crescer em diferentes regiões, como:
- ovários;
- trompas de Falópio;
- ligamentos do útero;
- peritônio;
- intestino;
- bexiga;
- ureteres;
- vagina.
Essas lesões provocam inflamação, aderências, cicatrizes e alterações anatômicas que podem interferir na fertilidade.
Como a gravidez acontece normalmente?
Para compreender como a endometriose pode afetar a fertilidade, é importante entender, de forma simplificada, como ocorre uma gestação.
A gravidez depende de várias etapas:
- o ovário libera um óvulo (ovulação);
- a trompa captura esse óvulo;
- ocorre a fecundação pelo espermatozoide;
- o embrião segue pela trompa;
- o embrião se implanta no endométrio.
Quando a endometriose interfere em qualquer uma dessas fases, as chances de gravidez podem diminuir.
Como a endometriose pode dificultar a gravidez?
A doença pode comprometer a fertilidade por diferentes mecanismos.
Na maioria das vezes, não existe apenas um fator envolvido.
Alterações nas trompas
A inflamação causada pela endometriose pode provocar aderências ao redor das trompas.
Essas aderências podem:
- alterar sua mobilidade;
- dificultar a captura do óvulo;
- impedir o encontro entre óvulo e espermatozoide.
Nos casos mais avançados, pode ocorrer obstrução tubária.
Comprometimento dos ovários
A endometriose pode formar cistos conhecidos como endometriomas.
Esses cistos podem:
- comprometer o tecido ovariano saudável;
- reduzir a reserva ovariana;
- dificultar a ovulação em alguns casos.
Além disso, cirurgias repetidas para retirada de endometriomas também podem diminuir a quantidade de tecido ovariano funcional, motivo pelo qual a indicação cirúrgica deve ser cuidadosamente individualizada.
Inflamação da pelve
A endometriose provoca um ambiente inflamatório persistente.
Essa inflamação pode alterar:
- o funcionamento das trompas;
- a qualidade dos óvulos;
- a movimentação dos espermatozoides;
- o desenvolvimento inicial do embrião.
Esses fatores podem reduzir as chances de fecundação.
Alterações no endométrio
Alguns estudos sugerem que a endometriose pode interferir na receptividade do endométrio, tornando a implantação do embrião mais difícil em determinadas pacientes.
Embora esse mecanismo ainda seja objeto de pesquisa, ele pode contribuir para a infertilidade em alguns casos.
Alterações anatômicas
Na endometriose profunda, aderências podem modificar significativamente a anatomia da pelve.
Os órgãos podem ficar aderidos entre si, dificultando o funcionamento normal do sistema reprodutor.
Toda mulher com endometriose terá dificuldade para engravidar?
Não.
Muitas mulheres com endometriose engravidam naturalmente.
O risco de infertilidade depende de fatores como:
- idade;
- extensão da doença;
- localização das lesões;
- presença de endometriomas;
- comprometimento das trompas;
- reserva ovariana;
- fertilidade do parceiro.
Por isso, o tratamento sempre deve ser individualizado.
A gravidade da endometriose interfere na fertilidade?
Em geral, sim.
Quanto mais extensa for a doença, maior tende a ser o impacto sobre a fertilidade.
De forma simplificada:
Endometriose mínima ou leve
Pode causar infertilidade, embora muitas mulheres consigam engravidar espontaneamente.
Endometriose moderada
O risco de comprometimento da fertilidade é maior devido ao aumento da inflamação e das aderências.
Endometriose profunda
Pode provocar alterações importantes da anatomia da pelve, comprometimento intestinal, urinário e reprodutivo.
Nesses casos, a avaliação por uma equipe especializada é fundamental.
Quais sintomas podem sugerir endometriose?
Nem toda mulher apresenta sintomas intensos.
Quando eles ocorrem, os principais são:
- cólicas menstruais intensas;
- dor pélvica crônica;
- dor durante as relações sexuais;
- dor para evacuar durante a menstruação;
- dor ao urinar no período menstrual;
- alterações intestinais cíclicas;
- dificuldade para engravidar.
É importante lembrar que algumas mulheres apresentam infertilidade como primeira manifestação da doença.
Quando investigar infertilidade?
De forma geral, recomenda-se investigação quando:
- mulheres com menos de 35 anos não conseguem engravidar após 12 meses de tentativas regulares sem contracepção;
- mulheres com 35 anos ou mais não conseguem engravidar após 6 meses;
- mulheres com suspeita ou diagnóstico conhecido de endometriose podem necessitar de avaliação mais precoce, especialmente se apresentarem sintomas importantes ou outros fatores de risco.
Como é feito o diagnóstico da endometriose?
O diagnóstico começa com uma consulta detalhada.
O médico avalia:
- sintomas;
- histórico menstrual;
- desejo reprodutivo;
- cirurgias anteriores;
- histórico familiar.
Também realiza exame físico e ginecológico.
Quais exames podem ser necessários?
Ultrassonografia transvaginal especializada
Quando realizada por profissionais experientes, é um dos principais exames para identificar:
- endometriomas;
- endometriose profunda;
- comprometimento intestinal;
- alterações da pelve.
Ressonância magnética da pelve
Ajuda a mapear a extensão da doença, especialmente nos casos profundos ou quando há suspeita de acometimento intestinal e urinário.
Avaliação da reserva ovariana
Pode incluir exames hormonais, como o hormônio antimülleriano (AMH), além da contagem de folículos antrais por ultrassonografia.
Esses exames ajudam a estimar o potencial reprodutivo da mulher.
Avaliação das trompas
Em mulheres com dificuldade para engravidar, pode ser indicada a histerossalpingografia ou outros exames para verificar a permeabilidade das trompas.
Como funciona o tratamento?
O tratamento depende de:
- idade;
- intensidade dos sintomas;
- estágio da doença;
- reserva ovariana;
- desejo de engravidar;
- tempo de infertilidade.
Tratamento clínico
Medicamentos hormonais são eficazes para controlar dor e reduzir a progressão da doença.
Entretanto, eles impedem a ovulação durante o uso e não aumentam as chances de gravidez espontânea enquanto estão sendo utilizados.
Por isso, sua indicação deve considerar os objetivos reprodutivos da paciente.
Cirurgia para endometriose
A cirurgia pode ser indicada em situações selecionadas, como:
- dor intensa;
- endometriomas de características específicas;
- comprometimento intestinal ou urinário;
- distorção importante da anatomia pélvica;
- casos em que a remoção das lesões pode favorecer a fertilidade, conforme avaliação individual.
A decisão cirúrgica deve ser cuidadosamente planejada para preservar a função ovariana.
Reprodução assistida
Quando a gravidez espontânea não ocorre ou quando existem fatores importantes comprometendo a fertilidade, podem ser indicadas técnicas de reprodução assistida.
As principais incluem:
Inseminação intrauterina
Pode ser considerada em casos leves e em situações bem selecionadas.
Fertilização in vitro (FIV)
É uma das estratégias mais eficazes para mulheres com endometriose associada à infertilidade, especialmente quando há comprometimento das trompas, idade materna avançada ou redução da reserva ovariana.
A indicação depende da avaliação individual do casal.
A cirurgia sempre melhora a fertilidade?
Não.
Embora a cirurgia possa aumentar as chances de gravidez em algumas pacientes, especialmente quando corrige alterações anatômicas importantes, ela também pode reduzir a reserva ovariana em determinados casos, principalmente quando envolve endometriomas.
Por isso, a decisão deve ser tomada por uma equipe especializada em endometriose e medicina reprodutiva, considerando os benefícios e os riscos para cada paciente.
É possível preservar a fertilidade?
Sim.
Em algumas mulheres, especialmente aquelas com risco de perda da função ovariana ou necessidade de cirurgias complexas, pode ser discutida a preservação da fertilidade, incluindo o congelamento de óvulos.
Essa estratégia é avaliada individualmente conforme idade, reserva ovariana e plano reprodutivo.
Quando procurar um especialista?
Procure avaliação se apresentar:
- dificuldade para engravidar;
- cólicas menstruais incapacitantes;
- dor durante as relações sexuais;
- dor para evacuar ou urinar durante a menstruação;
- diagnóstico prévio de endometriose;
- endometrioma identificado em exames;
- histórico de cirurgias por endometriose.
O acompanhamento precoce pode ampliar as possibilidades de tratamento e planejamento reprodutivo.
A importância do diagnóstico precoce
Quanto mais cedo a endometriose é identificada, maiores são as oportunidades de preservar a fertilidade e controlar os sintomas antes que a doença provoque alterações anatômicas importantes.
Além disso, o diagnóstico precoce permite que a mulher receba orientações sobre planejamento reprodutivo, reserva ovariana e, quando necessário, preservação da fertilidade.
Cada paciente apresenta uma realidade diferente. Por isso, o tratamento deve ser individualizado e realizado por profissionais experientes em endometriose e medicina reprodutiva.
Conclusão
A endometriose não significa que uma mulher será incapaz de engravidar, mas pode reduzir as chances de gestação em alguns casos. A doença interfere na fertilidade por diferentes mecanismos, como inflamação, aderências, comprometimento das trompas, alterações ovarianas e distorção da anatomia pélvica.
O diagnóstico precoce e o tratamento individualizado são fundamentais para preservar a fertilidade e aumentar as possibilidades de uma gravidez bem-sucedida. Hoje, com os avanços na cirurgia especializada e nas técnicas de reprodução assistida, muitas mulheres com endometriose conseguem realizar o desejo de ter filhos.
Se você foi diagnosticada com endometriose, apresenta sintomas sugestivos ou está tentando engravidar sem sucesso, procure um ginecologista com experiência em endometriose e fertilidade. Uma avaliação especializada pode identificar precocemente fatores que interferem na concepção e definir a estratégia mais adequada para o seu caso.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Quem tem endometriose pode engravidar naturalmente?
Sim. Muitas mulheres com endometriose conseguem engravidar espontaneamente, principalmente quando a doença é leve e não há comprometimento importante das trompas ou dos ovários.
Toda mulher com endometriose é infértil?
Não. Embora a endometriose aumente o risco de infertilidade, muitas pacientes mantêm sua fertilidade preservada. A gravidade da doença, a idade e outros fatores influenciam as chances de gravidez.
A cirurgia para endometriose aumenta as chances de gravidez?
Em alguns casos, sim. A cirurgia pode melhorar a anatomia da pelve e favorecer a fertilidade, mas também pode impactar a reserva ovariana em determinadas situações. A decisão deve ser individualizada.
O tratamento hormonal ajuda a engravidar?
Os medicamentos hormonais são importantes para controlar os sintomas da endometriose, mas não promovem a gravidez durante o período de uso, pois geralmente impedem a ovulação.
Quando a fertilização in vitro é indicada?
A fertilização in vitro pode ser recomendada quando há comprometimento importante das trompas, baixa reserva ovariana, idade materna mais avançada, infertilidade persistente ou quando outros tratamentos não foram eficazes.
Vale a pena congelar óvulos em quem tem endometriose?
Em algumas mulheres, especialmente aquelas com endometriomas, redução da reserva ovariana ou necessidade de cirurgias ovarianas, o congelamento de óvulos pode ser uma estratégia importante para preservar o potencial reprodutivo. A indicação deve ser discutida individualmente com a equipe médica.
Leia também
Precisa de avaliação médica?
A Dra. Andrea Jafelicci realiza atendimento em São Paulo e Jundiaí, com orientação individualizada para investigação, tratamento e acompanhamento oncológico.
Agendar consulta








